sexta-feira, 10 de julho de 2015

Errar é um acidente. Humano é querer sempre acertar...



Parabéns, criaturas perfeitas. Vocês conseguiram! Seu empenho valeu. Por seu esforço em se mostrar superior, conseguiram evoluir à categoria dos seres alados, como os dinossauros voadores, que não mais existem, as baratas de asas e os mosquitos de banheiro que continuam aí, perseverantes em sua chatice, aporrinhando como ninguém mais.
Você que nunca erra, que tanto se orgulha de seu quilate e de sua coragem de cuspir em nossa face imperfeita sua integridade, você que adora apontar, julgar e condenar os erros alheios. Você merece um diploma, uma distinção divina, a chave de todas as cidades. Você é o melhor de nós. Afinal, quem somos nós para discordar de você?
Daqui do lado de baixo do mundo, onde resistem aqueles que ainda não chegaram ao Olimpo onde reside, impera apenas uma incerteza colossal e um desejo honesto de, entre um erro e outro, tropeçar uma hora dessas num acerto qualquer. Por menor que seja, um acerto há de nos redimir e nos manter no caminho.
É que os erros da gente são nada senão acidentes de percurso. Ninguém erra por vontade própria. Erra-se por descuido. Erros são acidentes. Humano é seguir adiante e insistir no acerto. Mas isso as criaturas sobre-humanas como você desconhecem...
Porque nunca erram, não é mesmo?
Mas aqui, enquanto tentamos dar jeito na vida, faz bem imaginar a sua figura impecável caminhando por entre as nuvens. Você que tanto se  imagina um animal formoso, uma águia americana e é menos que um urubu brasileiro. Você é uma anta do tamanho de um elefante. É que você mal sabe, criatura mesquinha e pesada, que o ódio que compartilha por aí, em comentários irresponsáveis nas redes sociais, desejando a morte de um e o sofrimento de outro, é o mesmo, escandalosamente o mesmo ódio que na esquina seguinte desaba em uma criança inocente, atingida por uma bala perdida, disparada por um cretino que também se acredita juiz da vida e da morte. As doses desse ódio podem ser diferentes, mas o sentimento é o mesmo.
E como os mosquitos de banheiro que voam de encontro ao nosso nariz, você não se enxerga. Você mal sabe, mas é um bom e velho inseto de lavabo. Pode conferir. Até nos sanitários mais limpos do mundo, desses que os maníacos por higiene mantêm impecáveis por capricho doentio, uma hora aparece, ninguém sabe de onde um tipinho curioso de voador, uma minimosca acinzentada e ridícula que pousa sobre a toalha ou num canto gelado e fica ali. inútil como o quê. É você, o idiota de asas.
Do alto da sua nulidade, não serve para nada além de causar efeito breve esvoaçando de repente na direção do nariz da gente. Pousa na parede, leva um sopro e se desfaz em gramas de cinzas. Como uma criatura feita de nada.
Seu parente mais próximo na família dos seres enfadonhos são as criaturas capazes de ponderar “ah, mas se o bichinho está ali é porque você invadiu o habitat dele!”. São os arremedos de bons samaritanos, conhecidos como “gente boazinha”, sempre agitando o estatuto de defesa das mamangabas, dos escorpiões, das sanguessugas, das baratas e dos afins.
Eu tenho medo de gente boazinha demais. De um lado, pronta a defender em retóricas inflamadas todas as criaturinhas da natureza. Do outro, capaz de jogar comida envenenada para o gato do vizinho porque não quer limpar sujeira de ninguém no seu próprio quintal.
Gente boazinha na maioria das vezes é mera caricatura das pessoas boas de verdade. Uma pretensão, um fingimento. O sujeito bonzinho é quase sempre um cínico e dissimulado. Aplaude de perto e agride de longe. Conta ao mundo que chorou com as imagens de bois e vacas no matadouro e vive na churrascaria, refestelando-se em rodízios de carne, descendo o pau no governo corrupto e contando como pagou menos imposto com a ajuda de recibos médicos forjados, reunindo a turma do clube para comprar meia dúzia de cestas básicas e levar na comunidade carente uma vez por ano, porque assim é possível renovar seu visto de gente boazinha.
Sonso completo, lobo em pele de cordeiro, o ser bonzinho é capaz das piores atrocidades. “Aiiiiii… desculpa. Enfiei a faca em você, mas foi sem querer…”. Gente do tipo que acredita que a bondade é uma utopia e que ninguém precisa mais ser bom, leal e amigo de verdade. Basta ser bonzinho e sair divulgando por aí. Alma penada, dedica seus dias medonhos a infernizar a vida daqueles que, simplesmente, não fizeram o que ele queria, não se comportaram como ele mandou, não seguiram a cartilha esquizofrênica que ele escreveu com seus recursos pequenos, seus gestos rasteiros e seu feitio de réptil. Assim é o sujeito bonzinho.
E sabe você quem são os únicos seres capazes de suportar um humano bonzinho? As pessoas perfeitas. Os seres evoluídos como você.
Por tudo isso, seres perfeitos, gente boazinha e mosquitos de banheiro são nascidos uns para os outros. Eles se merecem. Então que sejam felizes...  
E nos deixem errar, acertar e cagar em paz.

Um comentário:

Pérola disse...

Errar é humano e querer a perfeição também.

Desta dualidade nasce a humanidade.

Somos assim, gentinha que se esforça e nem sempre pensa.

Beijinhos