quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O amor saiu de moda?


Estava ainda há pouco lendo uma crônica de um argentino chamado Jorge Luis Borges chamada "Instantes", onde ele retrata sua vida e repensa tudo aquilo que ele faria diferente ou que deixaria de fazer ou ainda tudo aquilo que ele não teve coragem e gostaria de ter feito, trata de coisas simples, trivialidades da vida como comer mais sorvete e menos lentilhas, viajar mais, ter mais problemas reais e menos imaginários... Termina sua crônica dizendo "...mas agora já tenho 85 anos e já estou morrendo."
Este assunto ganhou espaço na minha vida nos últimos tempos, tenho visitado com mais frequencia meu avô materno, portador do mal de alzheimer, que vem sofrendo as degenerações patológicas, está com quase 90 anos, e cada vez mais age como se tivesse menos idade devido a confusão cronológica causada pela doença. Com os olhos marejados transbordando pequenas gotas de lágrimas e grandes porções de saudades, faz planos e vislumbra um futuro bonito, mesmo que eu saiba que ele não terá tempo.
Tanto o escritor argentino quanto o vovô, oferecem a vida deles para que salvemos a nossa. Sempre vemos na TV, personagens de novelas em seus leitos de morte sem forças para quase nada mais, dizendo um "EU TE AMO" ensaiado há anos ou se desculpando por uma briga infantil e antiga ou até mesmo, pedindo para dar uma última volta pelo jardim...
Viver é morrer aos poucos e um dia a mais, pode ser um dia a menos, já que nosso fim é inevitável, começamos por agradecer pelo aviso prévio! Sejamos solidários e avisemos aos outros para que não deixem o amor para o último suspiro, morrer aos poucos tudo bem, mas não ser avisado é traição.
Alertem aos que estão contraindo HIV por preguiça que a pandemia já atinge um a cada 100 jovens e ainda não tem cura, aos capitalistas, avisem que dinheiro não traz felicidade (a forma em que se gasta pode até ser que sim), cutuquem forte aqueles que pensam que sonhos foram feitos apenas para sonhar, aconselhem aqueles que, por medo de ficarem sós, escolhem o parceiro ou a parceira sem análise nenhuma dos seus antecedentes... sacudam aqueles que juram amor eterno ao prato de macarrão só porque ele foi temperado com Sazon, carboidrato é comida e não carinho! Recomendem  àqueles que gosta, a dizer não as drogas e se possível conseguirem rir sem necessariamente precisar delas (o que claramente, nem sempre é fácil).
A Influenza "mortal" (H1N1), vulgo gripe suína está há tão pouco tempo no Brasil e já se aconselham, em épocas de epidemias o uso de máscaras cirúrgicas, lavar as mãos com álcool gel e estar atento a qualquer sintoma, em contraponto, apartamentos minúsculos e gradeados se proliferam pelas cidades hospedando gentes solitárias que morrem aos poucos nos braços de si mesmas...
Sabem de uma coisa?
Felizes são vovô e Borges, que não estão incólumes para ver que o amor está saindo de moda.

2 comentários:

Anônimo disse...

Uma visita da insônia, que me roubou uma noite inteira, ouvi o silêncio da casa, pensei na palavra, encontrei um texto...
...Hoje eu não sei dizer. Só sei sentir. Há dias em que as palavras não são capazes de traduzir o sentimento. E por isso a solidão se instaura.
A sensação de estar só é a mesma de não saber dizer.
Talvez seja por isso que só as pessoas que verdadeiramente se amam são capazes de suportar o silêncio...
Ficar calado é uma forma de dizer sem conceituar. Os conceitos são formulações fáceis, o silêncio não. Descobrir o que o silêncio diz requer mestria, observação minuciosa.
É bom não saber dizer...
Bom mesmo é ser compreendido, mesmo quando não sabemos dizer...
Amar é uma forma de crer em silêncio...

Anônimo disse...

...Então é isso. Já vão longe a espera, o frio na barriga, a data agendada. Nós conseguimos! Entre sete bilhões de pessoas no mundo, você e eu nos encontramos. Sabe-se lá por obra do quê, de quem, mas nos achamos. Somos duas e cá estamos, cada uma em seu canto e a seu tempo dizendo: enfim, nós.

Mas e depois disso? Vem o quê? O que acontece agora que não há mais segredo, que passou o encontro breve depois da espera longa? O que vem depois da primeira vez?

Você não sabe, não deve ter percebido, mas no instante ligeiro da nossa garrafa de vinho inicial eu saltei várias vezes para um tempo em que jamais estivemos, mas que desde sempre se fez nosso. Vi nossos futuros encontros, nossas próximas vezes, nossos dias seguintes, nossas noites vindouras.

Enquanto estivemos ali, nos descobrindo, apertados a uma mesa pequena e redonda, afastando nossos medos com as pontas dos dedos, como você queria, meu olhar perdido escorregou para longe, deslizou na enxurrada que corria franca com a chuva lá fora. E foi parando nos buracos, nos vãos e nas curvas do que há de vir.

A esperança é a primeira que vive
Vi você e vi a mim mesma nessas paragens, construindo nosso depois de amanhã, multiplicando nossas lembranças. Porque o amor deve ser isso mesmo, né? Esse escandaloso milagre da multiplicação. Vi encontros e partidas, esperas, chegadas. Vi nossos enganos, nossa saudade, nossa alegria do encontro seguinte, nossa paixão avassaladora, nosso amor se acalmando e se deitando em nosso colo, sob a sombra de uma tristeza sempre à espreita, uma sensação de que a qualquer tempo a festa acaba.
Lá estávamos nós, eu vi, namorando o amor de cada um, juntas, certas de que a vida terá sempre uma manhã de domingo preguiçosa para nossos pés cansados do caminho. Lá estavam a Terra girando azul, a manteiga derretendo amarela no pão. E a vida seguindo em preto, branco e todas as cores.

Então o tempo breve que dura uma primeira garrafa de vinho acabou. Meus olhos voltaram do futuro para a presença dos seus e o nosso início chegou ao fim. Passou a chuva, a noite, o café, o piano esperando na sala.

A mim, a nós, não cabe perguntar o que será depois. Porque a resposta é simples: depois da primeira vez vem a segunda. Depois a terceira, a quarta, a quinta e a sexta, os sábados e os domingos, e todas as outras vezes se sucedendo em fila, como eucaliptos num bosque infinito de expectativas. Como a vida que recomeça sempre, ao final de cada encontro que lhe dá sentido e som e fúria. O resto é o nada, o único caminho que a tudo leva...